Aminta

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Cheia de cores e formosura
minha amada que vocês
não saberão quem é
encanta épocas e governos corruptos;
nasceu do grito
quase sem cor e sangue,
mas vive e viverá.

Suas formas: gestos e construções de músculos,
cabelos ao vento, dentes que riem, mãos
respirando cheiros e sentindo orgasmos
encantam-se em cada sílaba
repetidas por si mesmas.
Tem grito que fala pelos mortos
e por aqueles que morrem
aos poucos (de fome).
Tem olhos que fotografam ações
que jamais serão repetidas
num futuro incerto,
mas terão mãos e olhos.
Tem cabeça que pensa por si
e que jamais será possível
pensar pelo outro.

Tem algo mesmo sabendo não ter.

Ela passa de carro
por moinhos que trabalharam cana e suor,
passa como avião motorizado
em países que não puderam ser ainda descobertos,
mas passa por estradas sem chão.

Minha amada veste roupa francesa-americana
em bailes de velhos e roceiros;
veste roupa em corpo despercebido.

Minha amada fuma o cigarro brasileiro
que Bertolt Brecht levou à boca e jamais saberá,
fuma o vapor de um mundo em consumo,
fuma o homem-fábrica compassadamente.

A minha bela que vocês não saberão quem é
falará de doentes pra crianças de câncer,
falará de seus avós
como criadores de leis miseráveis,
falará de homens como Antônio Rebouças e Ronaldo Souza
contribuintes às idéias de Marx,
falará de mulheres que se perderam por beijos
e outras que se trocaram por homens que lhes souberam criar.

Minha amada
será vista
como você lendo sua história,
será vista
como alguém que se mudou no espaço: espelho.
Minha amada
será a saudade que deixei na capital,
será Maria Alice Milliet de Oliveira
em roda de grandes pensadores
pensando o homem-museu,
será meu amor no papel,
será eu.

Minha amada
quem sabe não será Leminski
entoando revolta
em asilo de sábios,
quem sabe não será
amigo em casa fazendo poema para a amada,
quem sabe não será você.

[Crispim Aquino]



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