Branco e preto

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Se alguém me visse parado na rua
não veria a dor que carrego no colo
o peso que o corpo permite e equilibra
o esforço que faço pra ficar de pé

Se alguém me visse andando sozinho
diria que devo ser mais alguém
alguém comum com seu afazeres
um passo que vem como outros virão

Não veria o sangue que deixo na estrada
a pele já fraca que larga do rosto
e em carne viva o quanto estou morto
não veria que o peito só pulsa insistência

Se alguém me visse sentado na esquina
pensaria que espero algo da vida
que espero e que peço alguma melhora
que rezo, que choro, que me desespero

Não veria que o choro é puro sarcasmo
do corpo comigo e chora de rir
que a morte me ronda fazendo charme
me chama e foge e torna a chamar

E os sonhos contornam e nada me escutam
e falam de Branca como se existisse
e falam de mim lá com essa mulher
e falam e falam e muito me irritam

Se alguém me visse olhando uma foto
diria que um dia estive ao seu lado
estive abraçado ao corpo, ao cheiro
estivesse colado e estive pra sempre

Pensaria que um dia pensei no futuro
nos filhos e casa e carro e cozinha
em vinhos com a lua e dias na praia
pensaria que fui por um triz bem feliz

Não veria ninguém veria a verdade
a mentira da vida que tive com Branca
o preto que foi preto em todas as cores
e o quanto o preto só ele existiu

Assim deitado largado na rua
espero que alguém vendo me veja
meio atrasado e passe por cima
de tudo que ela deixou vivo em mim.

[Tibério Azul] – Mais poesias do autor



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