Canto das negras lágrimas

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Afundei o navio negreiro do meu coração
não me sinto escravo de nada, sei nadar,
mas ele ainda singra na memória
como o sangue derramado no mar.

De além-mar ao sul do Gabão
A dor que se vê na pele, vai te afogar
e ainda que falte ar à história
uma rima me faz respirar.

Poetas e marujos mergulham na solidão
enquanto nos becos sujos -ou em porta de bar
do fundo da noite sem estrelas
o canto torto das galés vai se fazer escutar.

“se o mar está calmo,
é claro que precisa escurecer
e se me cai uma lágrima
essa lástima alguém vai ter que beber.”

Calar a boca branca da escuridão
com o grito retinto da voz lunar
usar uma letra faminta, como isca,
que belisca quem não sabe pescar.

Nas noites profundas da imensidão
um poema revolto agita beira-mar
um povo com os pés limpos de areia
outrora nau sem rumo, vai se encontrar.

E o canto torto das galés vai se fazer escutar:

“se o mar está calmo
é claro que precisa escurecer.
E se me cai uma lágrima
esta lástima alguém vai ter beber.”

Ao amanhecer da noite juntar as mãos
para que nenhuma fique livre para açoitar
vamos cuspir o navio encravado na garganta
para que em negras lágrimas não se navegue mais.

[Sérgio Vaz]



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