Horácio às onze da manhã

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Numa sala branca e fria,
numa hora remota de uma manhã remota
ele resolveu me abandonar.

Alguns minutos antes das onze horas
Horácio caminhava pacientemente rumo ao duto excretor;
“Já é tarde”,
ele pensava enquanto o líquido pegajoso
escorria internamente.
Todos me olhavam.
Não pude me conter.
Não sabia o que estava acontecendo.

Sem deixar de representar o papel de maníaco sob a ação de calmantes,
mencionei sucintamente trechos de meu estado clínico passageiro;
distraí ao bando com alusões ao Vandalismo,
pude me contentar em arranjar alguns
segundos para mim mesmo.

Enfim, só.
No meio de pinheiros, revistas,
poeira, sombras,
numa ilha artificial,
não sabia ao certo seu significado, porém estava livre de todos.

Sabia que tinha um poder de auto-indução
suficiente para me perder de
propósito dentro de uma área de menos de 10m2.
Focalizando apenas no solo,
uma sensação peculiar de perdição gelou por alguns momentos meus ossos e acalentou minha uretra.

Estava na hora.
Repentinamente, uma poça de espuma jorrou aos pés de um pinheiro,
e meu pobre cérebro debilitado acreditou
ter superado mais um estágio da vida:

H O R Á C I O

Voltei à sala branca e fria com a certeza de que havia feito algo que não se repetiria mais.
(e assim termina a jornada pseudo-material da vida inexistente
de Horácio da Silva)

[Fabio Cardeli] – Mais poesias do autor



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