Línguas com afinco

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dança em mim a dúvida
e a inspiração
que não cruza meu caminho
pela calçada ou pelo banho

não aperta minha bunda
enquanto escolho livros
na livraria ou na biblioteca

não seca meu pescoço
num dia de sol

não beija minha boca
num fim de filme
enquanto choro
desesperada

sou áries
gosto de cores
gosto do choro grosso, doído

diz minha mãe
e me lembro
que eu mal havia completado 6
e me jogavam no fundo da piscina
pois ainda que mirrada e estrábica
voltava à superfície
e dizia
MAIS

gosto de ver filmes franceses no espaço Unibanco
lá, especificamente,
e mesmo quando o filme é ruim
saio dando de ombros
“ao menos ouvi o sotaque francês, valeu”

me desculpem a pobreza
mas nunca pude estudar línguas com afinco

meu cabelo está crescendo
agora posso fazer um rabo de cavalo bem alto
mas preciso aprender a relinchar
quem sabe assim afasto o mal em dois mil e dose

disse a uma amiga-irmã: dois mil e dose
até mesmo de Ypióca
quem nem é boa, nem ruim
é três reais

nunca dei para essas bebidas
mas agora que ando com meninas novas
encaro dessas coisas
ainda que a ideia seja minha
“traga uma ypióca”
não temos grana para a tequila

(dia desses caí no choro e Rafa disse que é porque estou vivendo o que não vivi)

mas não pense que são menininhas
são mulheres
que se entregam aos homens
que tomam pílula do dia seguinte
que choram desesperadas
porque temem a existência

e então matamos aula
deitamos no chão da faculdade
fumamos alguma maconha
muitos cigarros
e, em roupas floridas,
pensamos na vida
falamos sobre o mundo

e agora, por desejo próprio, ouço coisas nacionais recentes
mas me acho egoísta
faço isso também porque tenho coletado referências para um projeto
projeto é uma palavra amorosa
muito me anima

não gosto de me expor
mas quando vejo
contei a vida
assim
como se tirasse a cutícula
vendo tv

[Débora Lopes] – Mais poesias da autora



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