Memórias

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Memoria - Pedro Leite

Se me perguntassem hoje do que mundo é feito,
sem muito pensar eu diria que é feito de memórias.
Memórias que não necessariamente são minhas ou suas,
mas memórias que adormecem nos cadernos engavetados,
que um dia se revelam e vão compor um livro, uma lei ou uma notícia.
Memórias que pairam entre uma casa e outra
e que, por coincidência, vêm à ponto.
Algumas temíveis, impiedosas e latentes,
outras sorrateiras, desgastadas e quase vãs.
Verdades que um dia desabrocham de uma boca ofendida,
ou que simplesmente escapam numa confidência de irmãs.
Memórias de mãos atadas diante do fogo
que vagarosamente consome as certidões e títulos de um notário.
Jurisprudências, anais, que se sucedem para compor o acervo
de contradições em matéria de estado.
Memória de governos, que, eles, divididos em ministérios,
segmenta suas memórias, afim de parecer coeso.
Memória sem volume, circunferência ou peso.
Que se já não tivesse passado nem seria lembrada.
Memória que escapa às vezes, e que não raro se vai antes da consciência.
Desde a própria maneira de escrever, do vocabulário,
até o método de raciocínio que o filósofo usa para impor a tese.
Das simples paródias de amor até os balangandãs de escárnio,
das novenas mais brabas até os cabarés mais imundos.
Entoadas em hinos ou jogada às traças.
Veja bem como ela é diversificada…
Perdidas nos palácios ou escavadas nos jardins,
a memória viaja muito mais que imaginas.
Ela gira o mundo, mas se ela é o mundo, ela gira em si!
Maquia com palavras disformes um discurso fúnebre.
Cria desavenças e desentendimentos.
Ela se embrenha em esquinas de vez em quando…
E quem a tem, não entra mais em becos.
A memória é como a casca de uma laranja
que pendurada no fio de arame, logo se diluirá n’água quente.
Ela às vezes está no riso e no silêncio que o sucede.
Está na herança que amnistia o próximo,
só não está nas condoídas injurias de um filho ao pai.
Memória se faz de pedaços e, quando sóbria, dá vida a uma antologia.
Com ela se divaga e sem ela se se distrai.
Carregada no bolso ou sabida decor,
contemplada no anzol vazio que derrotado vem à tona,
a memória é o fio que ata as duas pontas da história…
Contada pela metade ela carece de fidelidade,
mas contada por inteiro ela põe fim ao suspense.
Memória exígua, franzina e subjacente,
adormecida nas papilas da língua e despertadas com um novo beijo.
Aromas do vinho que bebeste na juventude.
Cicatriz no rosto.
Ausência daquele dedo que se engrenou na máquina.
Ela te cerca e ao mesmo tempo te liberta.
Impressa no mármore que levou teu nome,
ela é o traço que separa a data do teu nascimento e o da tua morte.
Memória, tu a deixas, ou a levas contigo…
E assim, quando as tuas pupilas deixarem de ver o mundo tal qual ele é,
e quando tuas virtudes repetidas já molestarem teus filhos e netos,
uma mulher foragida dará à luz sob a mira de um fuzil.
Uma nova vida se lhe descerá pelas pernas.
Desfalecida a mulher respirará e contará os segundos antes de ser cravejada,
mas neste momento o recém-nascido soltará um grito feroz.
O soldado relaxará, enfim, o dedo, para enxugar uma lágrima.
Memória também é o segredo.
É o espanto e o sentimento de covardia,
ao notar, que ainda de olhos fechados,
o nascituro rastejará para abocanhar a teta.

“Paris 21.03.2014″

[Pedro Henrique Leite]



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