O Silêncio dos Tambores

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Isso não foi há muito tempo. 
Dizem que as estrelas não piscam – estrelam as nuvens –,
mas a chuva cai no concreto,
                                                           lembrando
a cidade do que fora a terra sob o asfalto. 

 
Cantam os pássaros a mesma melodia. 
 
O canto ainda permanece sem tradução,
mas na terra roxa sabiam os calos da mão o que sentir. 

 
Rumor de tempestade sobre as antenas,
sobre os varais nos terraços dos prédios.
Árvores desabam assustadas – mas as crianças não gritam mais,
                                                                       não se assustam. 

Cantam os pássaros a mesma melodia
e
isso não foi há muito tempo. 

 
Lutou o homem contra si mesmo.
Contra seus nervos partidos,
                                               contra a palma dos pés e o firmamento.

Lutou o homem contra seus medos.
Contra seus sonhos de menino,
                                               contra os cílios e as lágrimas na face. 

A terra
                        – grávida de esperanças –
partiu-se em duas, feito mãe dando à luz.
Recebeu a semente:
 
                        o corpo do homem. 
 

Silêncio no crepúsculo. 
 

O horizonte se divide –
duas
                                                                       cores.

O vermelho que reflete a cor da terra:
                        sangrada e suada pelos que ali passaram.
O violeta da divindade que protegia os guerreiros:
                        a realidade da fé na dor do inalcançável. 
 

Isso não foi há muito tempo:
os pés pisando a terra fria,
a manhã acordada por ferramentas nos ombros,
o mugir dos passos na plantação. 

 
Mas foi-se o tempo da mão colhendo o futuro. 
 
O metal e o asfalto esquecem,
mas
cantam os pássaros a mesma melodia 
 
enquanto 
 
silenciam os tambores.


[Homero Gomes] – mais poesias do autor



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