Ontem

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Cel Bentin - Ontem

Não creio que exista no mundo silêncio mais profundo que o silêncio da água.
Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci.
josé saramago

..

Hoje ainda é outubro.

Enquanto a chuva chora a manhã e acorda o céu,
a janela estende o olhar para além do verso, que diluvia.

Avulsa e rasa, a íris pesa pensa;
vela presa à lembrança que alivia.

Nesse horizonte de minas d’água
e de recordações tombando potes,
o instante, úmido, pende o varal do dia.

Será tudo obra de um deus de dedos tortos
que prendeu às vestes das horas suspensas
insones tempestades a envergar minha sina?

Não.

Só o Dilúvio é de Deus.
Já o resto, até mesmo o tempo,
é a humana condição quem alucina.

Por isso esse outubro de olhares pendentes
tem sua causa na alvorada vestida de gente.

E não há deus-poesia (Jonathan, de Adélia;
ou Bernardo, de Manoel) que me desminta:

É tudo culpa
dessa aurora.

A do teu beijo
na minha boca.

Vazia.


[Cel Bentin]



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