Quando falo de mim

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quando falo de mim
não falo das frieiras em meus pés
machucados a cada passo suado
fedido e atrasado
não falo da nicotina que arrebenta
meus dentes e hálito
tingindo de amarelo o sorriso já etéreo
nem das gengivas sangrando pela manhã
no espelho dando um certo charme
a cor cinza da pia ou dos olhos
quando falo de mim
não falo das minhas dobras assadas
pelo calor
do constrangimento de ficar em pé
atirando bom dia contra os contrastes
não falo das bolas cheias presas na cueca
aguardando o retorno pra casa
que na hora do banho rápido
voltam ao normal graças a mão
criativa do homem
quando falo de mim
não falo dos pedaços de bosta
que endurecem nos cabelos do cu e coçam
bem na frente de uma possível trepada
não falo dos delírios que tenho
sentado no banco do ônibus voltando
pra casa sem a menor vontade de existir
o horizonte chapado de nuvens não
alivia uma secura ancestral
quando falo de mim
não falo das vezes que abraço párias
na porta da igreja e ergo
um brinde a todos os anjos
que fumam cigarro do paraguai
nem de como me envergonho
no supermercado contando trocados
pro necessário e um tanto pra
me manter alterado
quando falo de mim
não falo da ratoeira armada
embaixo da pia da cozinha
pra capturar meus fantasmas de madeirite
barata e borracha frouxa
rangendo e pingando
regendo minha paranoia
quando falo de mim
não falo dos autores que tanto amo
e levo nos calcanhares desde a adolescência
nem da idiotice de me deixar levar
pelos poetas virada de século
numa cópia tardia e sem sentido
quando falo de mim
não falo da tristeza de acordar e largar
no travesseiro a melhor parte do dia
não falo de como me sinto mais
responsável aos olhos de minha mãe e vó
e de como isto seria repugnante
tempos atrás
agora engulo tudo como
carne moída de segunda
e kisuco de framboesa
quando falo de mim
não falo

[Mateus Novaes] – vocalista da banda Krias de Kafka. Desistência é seu primeiro livro de poemas. Nasceu em Santo André em 1981. Seu gosto pelo desgosto surgiu na adolescência, onde intercalava leituras de poetas concretos e malditos , audições de bandas de rock alternativo e filmes. Nesta época surgem os primeiros poemas. E estes não o abandonaram mais.



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