Serafim Negro

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Lembro que alguém se aproximava vestido de nuvem
eu relampejava num inverno lento e nebuloso
mas via e ouvia a tempestade do outro lado
com seu furacão nervoso
feito de anjos apressados
também o vermelho intermitente
que julgo ser da morte
iluminava os mantos brancos e realçava
o rubro borrifado nas asas dos mais agitados

não sei se cheguei aqui caminhando
ou se despenquei do alto da montanha rotineira
para um voo inédito e solitário
tudo que agora
minha memória consegue processar
é dor
cálculo sádico do insuportável
numa biologia empírica
para o futuro simbiótico da mais adaptável das espécies
e por isso a menos inocente
humanos, sempre tão indefiníveis
somos intempestivos e calculistas
somos bandidos cósmicos com aura
de indolência inocente

38 anos, branco, B negativo, não entendi a última palavra
gritada por uma espécie de serafim negro
de longo cabelo cacheado
e sotaque de trovoada
com urgência desbainhou sua navalha e encostou-a em minha garganta
perguntava por coisas e essas coisas não eram respostas
apertou a ponta ameaçadora e senti um fio de sangue

e
s
c
o
r
r
e
n
d
o

berrou o mais alto que pode as trombetas do desespero
mas seu idioma alado era rápido e desconhecido demais
para um humano renegado e caído

olhando profundamente em meus olhos abertos e serenos
cravou fundo a lâmina, por fim, na raiz de minha traqueia
um golpe certeiro e fugaz que fez escapar ar por um tubo do tempo
e numa única lufada de vida
me guiou veloz por um túnel
iluminado de asfalto
irregular, lombadas e curvas
até um devaneio onírico por onde circulava
cada gota
de um líquido da cor do sonho
que pingava desde um recipiente acima da minha cabeça
e atravessava minha veia como uma ponte

afiada entre dois desfiladeiros

atirei-me sem medo no mais escuro deles
e despertei na realidade
e num susto

em que um anjo negro de cabelos cacheados
dava choques em meu peito
e então me beijava

[Jr. Bellé] – Mais poesias do autor



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