Stalker

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Stalker - Peu

Deixam vez ou outra um chiclete cozinhando ao sol,
deixam sonhos esquecidos nos bancos da praça,
deixam a graça se perder no ar condicionado do shopping.
Sentado escuto todo tipo de passear,
sedutores,
senis,

civis
e militares.
Coturno tamanho 43 com bico de aço,

chuta forte o menino fraco,
bate pesado no chão molhado do Centro,
corre atrás da bandidagem toda e tem medo de andar sozinho.
Pé temperado a gás de pimenta e pólvora,
caminhar que passa e leva a beleza para averiguação,

faz o bom senso tomar chá de cadeira
e tenta prender a liberdade.

Ouço aqui do meu banquinho todo tipo de caminhar
os que mancam,
os que olham para cima,
para baixo
e também os que estão aprendendo a andar.

Tropeçam,
ralam o joelho,
batem o queixo,
vivem assim.
Passam por aqui pés pequenos,

pés com as unhas pintadas,
pés inchados,
pretos,
pardos,
brancos

e tantos outros magrelos.
Todo pé tem a perna que merece, que lhe cabe.

Todo pé sabe o chulé que tem.
Sabe a estrada que percorreu para chegar até aqui.
Alguns sujam de lama o tapete vermelho
há quem queira andar de salto alto na areia,
há até quem use sapato no campo de futebol,
pés trocados,

esquerdos querem ser direitos,
direitos querem voltar ao poder.
Não enxergam um passo a frente.
Por aqui passa todo tipo de gente, todo tipo de caminhar,
todo tipo de passo passa por aqui.
Eu os ouço atentamente,
me enamoro por alguns,
tenho repulsa de tantos outros.
Passo a tarde toda a ouvir passos saudáveis e nocivos,
sonsos
e fingidos.
precipitados e frívolos.
A cidade caminha por aqui,
corre com a pressa cinza de todo dia,
ouve seu iPod, manda mensagens de texto e passa batida.
A cidade não olha para o lado, não sai do trânsito, não repara em mais nada.
Eu ouço a cidade resmungar baixinho.
Ela também queria ter tempo de sentar aqui neste banco verde escuro.
Mas ela passa.
Junto dela passa todo tipo de caminhar
apressado,

cauteloso,
rico,
elegante.
Passos de formiga e elefante.
O sol tá baixando no poente

e os pombos já estão empapuçados dos miolos de pão que eu trouxe.
A passos lentos me junto à multidão,
sou mais um passo que passa pelo banquinho de madeira.
Subo a ladeira enquanto o sol se esconde no horizonte em silêncio.
Fim de tarde,
o sol arde menos,
os pés voltam pra casa cansados,
com as solas gastas,
Ali vai mais um par de pernas sozinho

apressado, cauteloso, rico, elegante…
Pés de anjo, de diabos, de mulheres da noite, do dia, da vida.
Pés másculos, áridos e cheios de virilidade.
caminham pra lá e pra cá
sem o menor charme,
sem formosura nenhuma,
Estou eu ainda ouvindo todo tipo de caminhar.

[Peu Araújo]



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